Qual buraco se abriu no chão e mudou teu nome?
- Emanuelle Tinel
- há 2 dias
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Era uma vez uma deusa chamada Core. Conhecida como a deusa das flores, dos frutos, da natureza em broto. Filha deZeus e Deméter, ela vivia entre os jardins, e estava sempre protegida pela presença da mãe.
Até que um dia, enquanto caminhava entre as flores, o chão se abriu. De dentro da fenda surgiu a carruagem de Hades, senhor do submundo. Core foi raptada. O chão se abriu e Core foi raptada de si mesma.
No submundo, o seu destino se alterou. E ao provar a romã oferecida por Hades, ela já não pode retornar a ser quem era. Assim, Core transforma-se em Perséfone. A jovem das flores tornou-se rainha do mundo subterrâneo.
O que esse mito diz sobre a psique feminina
Mas os mitos raramente falam apenas de deuses.Eles falam da alma humana. Como observa Jung em Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (OC 9/1), figuras como Kore pertencem ao domínio das formas arquetípicas do inconsciente: padrões simbólicos que reaparecem nas culturas porque expressam estruturas profundas da vida psíquica.
Enquanto vivia entre as flores, Core permanecia no campo da inocência e da continuidade materna. Sua identidade ainda não havia se diferenciado. Seu destino parecia seguir o ritmo tranquilo das estações e dos jardins. Mas o mito introduz uma ruptura violenta: o chão se abre.
Na linguagem simbólica, esse rasgo na terra pode ser entendido como a irrupção do inconsciente. Algo emerge das profundezas e interrompe a continuidade da vida anterior.
Na perspectiva da psicologia analítica, a descida de Core ao submundo marca uma ruptura fundamental: o momento em que a filha deixa de existir apenas como extensão da mãe.
Ao provar da romã oferecida por Hades, ela estabelece um vínculo com o mundo subterrâneo. A partir desse gesto, já não pode retornar plenamente à condição anterior. É nesse ponto que Core torna-se Perséfone.
Nos mitos, mudar de nome significa mudar de estado de ser. A jovem ligada às flores transforma-se na rainha do submundo, aquela que conhece tanto a superfície quanto a profundidade.
Na perspectiva junguiana, essa descida pode ser compreendida simbolicamente como um movimento em direção às profundezas da psique, um contato transformador com dimensões inconscientes da experiência.
Sob esse olhar, o mito pode ser lido como o momento em que a mulher atravessa uma experiência que rompe a identidade infantil e inaugura um contato mais profundo com sua própria vida psíquica.
Nem sempre essa passagem acontece de forma suave. Muitas vezes ela chega como ruptura, perda, crise ou deslocamento. Um momento em que algo do mundo conhecido se rompe e a mulher é obrigada a descer a territórios internos que ainda não conhecia.
Entre dois mundos
No mito, após a busca de Deméter pela filha, os deuses estabelecem um acordo. Perséfone passará parte do ano no submundo com Hades e parte do ano na superfície com a mãe. É dessa alternância que surge a explicação mítica para as estações. Mas simbolicamente isso é ainda mais interessante.
Na psicologia analítica, essa posição intermediária indica alguém que conhece tanto a superfície quanto a profundidade da psique. Perséfone deixa de ser apenas a jovem das flores e torna-se uma figura que transita entre dimensões. Ela não pertence mais exclusivamente ao mundo luminoso da inocência. Mas também não é totalmente absorvida pelo submundo. Ela vai e volta.
Isso faz de Perséfone uma espécie de mediadora entre mundos. Do ponto de vista simbólico, isso representa algo profundamente humano: depois de certas experiências — perdas, rupturas, crises, amadurecimento psíquico — a pessoa passa a carregar dentro de si o conhecimento da profundidade. Ela retorna à vida cotidiana, mas já não vive apenas na superfície. Algo do submundo permanece.
Nesse sentido, Perséfone encarna uma transformação importante da psique feminina: a passagem da filha protegida para uma mulher que conhece tanto a luz quanto a sombra de sua própria experiência.
Talvez por isso esse mito continue tão vivo. Porque muitas vezes a vida também nos convoca a descer. E, quando voltamos, já não somos exatamente quem éramos. Voltamos diferentes, como Core que, depois da descida, passa a responder por outro nome.
Figuras como Kore não pertencem apenas à mitologia grega. Elas expressam imagens arquetípicas que continuam reaparecendo em sonhos, narrativas e experiências humanas ao longo da história.
Referências:
Mitos, mulheres e deusas: o feminino através do tempo. Martha Robles, 2019.
Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos formaram a mulher atual. Renato Noguera, 2017.
Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Carl Gustav Jung, 2019.



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