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Cassandra, a mulher desacreditada

  • Foto do escritor: Emanuelle Tinel
    Emanuelle Tinel
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

Talvez você já tenha ouvido falar de Cassandra, princesa de Tróia, filha de Hécuba e Príamo. A narrativa de seu mito pode ser lida como a expressão de um feminino cuja forma de saber já não encontrava legitimidade na nova organização de um mundo patriarcal, marcado pelo logos, pela guerra e pelo poder masculino.

A mitologia grega nos conta que Apolo - deus da luz, da razão e da profecia - prometeu a Cassandra o dom da visão do futuro em troca de sua entrega amorosa. Após receber o dom, Cassandra recua diante do pacto. Como punição, Apolo não retira sua capacidade de ver, mas a amaldiçoa: suas profecias jamais seriam acreditadas.

Assim, Cassandra passa a ocupar um lugar paradoxal: vê com clareza aquilo que está por vir, mas não encontra escuta. Anuncia a queda de Tróia, alerta sobre o cavalo de madeira deixado pelos gregos e prevê a própria morte, sem jamais conseguir transformar sua visão em ação coletiva.

Há versões do mito que indicam que Cassandra já tivera seu choro reprimido e silenciado desde a infância, inclusive por sua mãe. Na vida adulta, essa desautorização se amplia: sua palavra perde valor público, sua intuição é tratada como excesso, delírio ou ameaça.

Após a destruição de Tróia, Cassandra é levada como prisioneira por Agamêmnon e morta em Micenas por Clitemnestra. Sua morte não encerra apenas uma guerra, mas simboliza o risco de um saber feminino que não encontrou lugar para existir.

 

Cassandra e as mulheres contemporâneas


A experiência de Cassandra não pertence apenas ao mito. Ela se repete hoje em muitas mulheres que percebem sinais de esgotamento, violência, adoecimento emocional ou rupturas iminentes antes que o entorno esteja disposto a ouvir.

São mulheres frequentemente rotuladas como exageradas, ansiosas, sensíveis demais ou pessimistas. Na clínica, aparecem como mulheres que não são levadas a sério, marcadas pela ambiguidade e que, aos poucos, aprendem a silenciar a própria intuição para sobreviver.

É importante ressaltar que, para a psicologia analítica, a intuição não se refere a experiências místicas. Jung (2013) a descreve como uma função psíquica de percepção, responsável por apreender possibilidades, direções e sentidos ainda não manifestos, a partir da síntese inconsciente de informações já presentes na psique.

Clinicamente, isso se expressa quando alguém percebe um risco, um esgotamento ou uma ruptura antes que tais processos se tornem visíveis, não por adivinhação, mas por leitura implícita de padrões emocionais e relacionais.

Muitas mulheres aprenderam desde cedo a silenciar e desconfiar da própria percepção. Isso pode ocorrer quando o ambiente não acolhe o choro, a dúvida ou a sensibilidade e a mulher cresce sem um lugar interno de amparo. Além disso, muitas mulheres desenvolvem um conflito com a própria voz interior. Mesmo percebendo algo com clareza, duvidam da própria capacidade de sustentar aquilo que sabem, como se sua palavra precisasse sempre de autorização externa.

Talvez a pergunta que o mito de Cassandra ainda nos faz não seja sobre o excesso de sensibilidade, mas sobre a falta de escuta. Quantas mulheres adoecem não por delírio, mas por perceberem cedo demais aquilo que ninguém quer ver? Quando a intuição é reconhecida como função psíquica legítima, Cassandra deixa de ser a mulher desacreditada e pode, finalmente, existir sem precisar se calar para sobreviver.

Schapira (2018), compreende que o sofrimento de Cassandra não se resolve ao abandonar sua intuição, mas ao transformar a forma como ela se relaciona com aquilo que percebe. Isso envolve, por um lado, reconstruir um lugar interno de acolhimento, no qual o sentir não seja vivido como erro ou excesso e, por outro, reconciliar-se com a própria voz interna, aprendendo a sustentar e nomear sua experiência sem se desautorizar.

 

O que Cassandra, você e eu podemos ter em comum?

Muitas de nós fomos socializadas para o silêncio, a submissão e a subjugação dos desejos masculinos. Quando recuamos diante do papel que nos foi oferecido e ousamos nomear nossas percepções, não é raro que sejamos desacreditadas pelo coletivo.

Talvez o mito de Cassandra permaneça atual porque o risco não está apenas no saber, mas no isolamento de quem sabe. Quando a escuta falha, o sofrimento se individualiza e a mulher passa a carregar sozinha aquilo que pertence ao campo relacional.

Reconhecer, em nós, aspectos com potencial de adoecimento é parte de uma tomada de consciência necessária para uma vida mais segura e psíquicamente habitável. A escuta - clínica, simbólica e coletiva - não impede o conflito, mas pode evitar que ele precise ser pago com o silêncio ou com o adoecimento.

 

Referências

Tipos psicológicos, Carl Gustav Jung

O complexo de Cassandra, Laurie Layton Schapira


 
 
 

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