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Helena de Troia e o mito da beleza

  • Foto do escritor: Emanuelle Tinel
    Emanuelle Tinel
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Helena de Troia e o mito da beleza
Helena de Troia e o mito da beleza

 

Conta o mito que Helena, princesa de Esparta, era filha de Leda e Zeus. Semideusa, foi considerada a mulher mais bela do mundo.Desde a infância, sua beleza representou riscos: Helena chegou a ser raptada por Teseu, rei de Atenas, sendo posteriormente resgatada por seus irmãos.

Sua beleza passou a operar como um fator de objetificação, transformando-a em troféu. Diversos homens gregos disputaram sua mão não apenas pelo desejo de possuí-la como esposa, mas também pelo acesso ao trono de Esparta. Nesse sentido, a beleza deixa de ser um atributo pessoal e passa a funcionar como capital simbólico, inserindo Helena numa lógica de poder e disputa masculina. Como aponta Wolf (2025), “os homens fortes lutam pelas mulheres belas”.

Para conter os conflitos entre os pretendentes, foi estabelecido um juramento: todos os homens que disputavam Helena comprometeram-se a proteger aquele que fosse escolhido por ela como marido. Helena escolheu Menelau, príncipe micênico, e esse pacto selou não apenas uma união conjugal, mas uma aliança política entre os gregos. Assim, quando Helena foi levada para Troia, o impacto não foi sentido apenas na esfera privada, mas como a quebra de um acordo coletivo, mobilizando os gregos para a guerra.

É nesse contexto que a mulher mais bela do mundo torna-se promessa de Afrodite à Páris durante o chamado Julgamento de Páris, no qual o príncipe troiano foi incumbido de escolher entre Hera, Atena e Afrodite qual delas era a mais bela. Enquanto Hera lhe oferecia poder e domínio político, e Atena prometia sabedoria e vitória na guerra, Afrodite lhe prometeu Helena. Páris, então, não escolhe governar nem guerrear, mas opta pela promessa da beleza e do amor.

Helena ficou conhecida como “a mulher que lançou mil naus”, expressão que cristaliza a ideia de que sua beleza teria sido a causa de uma guerra que durou dez anos. No entanto, essa narrativa encobre o que o próprio mito revela: não foi Helena quem mobilizou exércitos, mas um pacto masculino sustentado pela objetificação do corpo feminino, pela lógica da posse e pela promessa de poder. A guerra de Troia não nasce do desejo de Helena, mas da incapacidade de uma cultura em lidar com a beleza sem transformá-la em território de disputa.

Se no mito a beleza de Helena mobiliza pactos, alianças e guerras, na contemporaneidade ela segue operando como um dispositivo de controle do feminino. Como aponta Wolf (2025), o mito da beleza funciona como um sistema político que mantém as mulheres sob vigilância constante do corpo, da aparência e da desejabilidade, enquanto outras formas de poder lhes permanecem restritas ou inacessíveis.

Esse mesmo sistema que empurra as mulheres para papéis de gênero rigidamente definidos, entre eles a obrigação de manter-se bela, é o que, como afirma Myara (2024), “desvaloriza as mulheres e tudo o que é associado ao feminino”. O patriarcado, assim, alterna entre exaltar e punir o feminino, sustentando uma dinâmica ambígua em que a mulher nunca está fora do controle simbólico: quando atende ao ideal, é reduzida a ele; quando dele escapa, é sancionada.

A beleza, nesse contexto, atua como um capital simbólico imposto, frequentemente apresentado como o único recurso disponível para garantir segurança, pertencimento e valor social às mulheres. Contudo, esse capital cobra um preço psíquico elevado. Na balança dessa ambivalência, a culpa emerge como um fator potente de adoecimento. Assim como Helena, que em Homero lamenta não ter morrido no ventre materno, muitas mulheres carregam o peso de serem responsabilizadas pelos efeitos de um sistema que as objetifica e, ao mesmo tempo, as condena.

Retirar Helena do lugar de causa da guerra é também um gesto simbólico necessário para pensar o presente. O mito da beleza não fala apenas de um passado mítico, mas de uma estrutura que persiste, reorganizando-se historicamente. Ao deslocar a culpa do corpo feminino para os sistemas que o instrumentalizam, abre-se a possibilidade de romper com narrativas que adoecem, silenciam e responsabilizam as mulheres por violências que não lhes pertencem.

 

Referências

Deusas: os mistérios do divino feminino, Joseph Campbell, 2015.

Deusas, bruxas e feiticeiras: histórias de quando Deus era mulher, Julia Myara., 2024.

Ilíada, Homero, 2020.

Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos formaram a mulher atual. Renato Noguera, 2017.

O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Naomi Wolf, 2025.


 
 
 

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