A rivalidade feminina está a serviço de quem?
- Emanuelle Tinel
- há 1 dia
- 3 min de leitura

Esse conflito não é individual: é coletivo, histórico e continuamente reforçado ao longo de milhares de anos, atravessando culturas. Podemos observá-lo nas mitologias antigas e, ainda hoje, nas músicas, nos livros e nas redes sociais.
A mitologia grega nos narra um julgamento de beleza que se tornou o estopim de uma guerra entre gregos e troianos que durou uma década. Excluída do casamento de Peleu e Tétis, Eris, deusa da discórdia, lança um pomo de ouro com a inscrição “à mais bela” entre Hera, Atena e Afrodite.
Convencidas de que o prêmio lhes pertencia, as deusas recorrem a Zeus, que se exime do julgamento e transfere a decisão à Páris, um mortal. O mesmo Páris que, mais tarde, levaria Helena para Tróia. Como vimos no artigo anterior, ele escolhe Afrodite não por quem ela é, mas pelo que ela promete: a mulher mais bela da terra.
O culto à beleza, operando como dispositivo de organização social, transforma-se aqui em uma ferramenta de fragmentação do feminino. A rivalidade entre as deusas funciona como alegoria perfeita de um sistema patriarcal que divide para governar, desarticulando o poder feminino coletivo.
É importante lembrar que o patriarcado nascente desmonta as antigas imagens da Grande Mãe e passa a compartimentalizar o feminino. E assim, cada deusa passa a ocupar um território específico, limitado e por vezes, concorrente.
Em uma leitura ampliada, as três deusas representam expectativas sociais femininas conflitantes e impossíveis:
Hera encarna o arquétipo da esposa, da fidelidade institucional e da matrona. Atena representa a mulher intelectual e estratégica, valorizada quando opera segundo as regras do mundo masculino. Afrodite simboliza a amante, a beleza, a sensualidade e o prazer.
A mulher contemporânea é constantemente convocada a ser todas ao mesmo tempo e punida quando escolhe priorizar uma em detrimento das outras. Helena, como vimos no artigo anterior, tratada como “propriedade” de Afrodite, encarna o caos produzido por essa cisão.
Qual seria, então, o pomo da discórdia atual?
Se falamos de deusas, encontramos no polo oposto o arquétipo das bruxas. Nas mitologias e nos contos de fadas, beleza e juventude raramente caminham ao lado delas. No imaginário coletivo, a promessa da beleza eterna segue sendo o prêmio e a ameaça.
Importante salientar que os padrões de beleza são dinâmicos e variam conforme o tempo e a cultura. Hoje, porém, as mudanças são tão rápidas que, especialmente as mulheres, não conseguem acompanhá-las. Essas transformações exigem tempo, dinheiro e, muitas vezes, intervenções corporais cada vez mais invasivas.
Naomi Wolf, em O mito da beleza, descreve esse ideal como um verdadeiro “sistema monetário”, no qual o valor da mulher é atrelado à manutenção da juventude e da aparência. Nesse cenário, a rivalidade feminina permanece ativa, como no mito das três deusas.
O pomo, lançado por uma deusa, só se transforma em guerra quando encontra um sistema que organiza o feminino a partir da comparação, da hierarquização e do julgamento externo. Assim, mulheres — divinas ou mortais — passam a disputar entre si um valor que nunca foi definido por elas. Enquanto competem, não questionam quem sustenta as regras do jogo.
Referências
Deusas: os mistérios do divino feminino, Joseph Campbell, 2015.
Deusas, bruxas e feiticeiras: histórias de quando Deus era mulher, Julia Myara., 2024.
Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos formaram a mulher atual. Renato Noguera, 2017.
O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Naomi Wolf, 2025.





Comentários